Quatro anos com Francisco, o pastor com cheiro de ovelha

Francisco está dando uma guinada no interior da Igreja católica.

16 de Março de 2017

 

Eleito aos 76 anos em 13 de Março de 2013, Francisco, nascido Jorge Mario Bergoglio, é o primeiro papa não europeu desde o sírio Gregório III (731-741). Jesuíta, Bergoglio é o 266º Bispo de Roma e Servidor da unidade da Igreja a ocupar a linha sucessória da cadeira de Pedro. Francisco renunciou a atributos de vestimentas e hábitos honoríficos e foi viver em um quarto e sala de 70m², em vez dos luxuosos apartamentos pontificais. Criado no subúrbio de uma metrópole latino-americana, Francisco construiu sua compreensão dos espaços: fronteiras existências famílias sem casa, sem trabalho, gente descartada. Este papa tem lado: o da opção preferencial pelos pobres. O vínculo entre seu pontificado e os pobres é indissolúvel. “Os pobres são a carne de Cristo”!

 

Admirado pela sua simplicidade, jovialidade, coerência e coragem, Francisco recolocou a Igreja na cena política internacional. Ao desmascarar as causas da pobreza, desacralizar as estruturas injustas divinizadas e defender a justiça social, o líder da Igreja tornou-se uma referência a todos que resistem à tentação da idolatria do dinheiro, à ditadura dos mercados, à especulação financeira, às políticas que consideram doentes e idosos um estorvo.

 

Francisco introduz o pensamento sistêmico na Igreja, segundo o qual todos os fatores sociais estão relacionados. A humanidade carrega a responsabilidade pela exclusão social e a degradação planetária por não reagir diante de um sistema que destrói “a casa comum”. A crise que assola os trabalhadores é fruto de uma economia que despreza o ser humano: pobreza-exclusão e cultura do desperdício, ditadura do curto prazo e alienação consumista, aquecimento global e cultura da indiferença. Entretanto, ao reorientar toda a Igreja a olhar o mundo a partir dos excluídos não diz nada de novo; repete o que está dito em vinte séculos da história do cristianismo. Se por um lado existe continuidade, por outro, o pontífice latino americano vai muito além de seus antecessores. A DSI sempre insistiu na urgência da reforma agrária, no direito à habitação e ao emprego. São os três “T” de Francisco: Terra, Teto, Trabalho.


Um homem que desafia as consciências. Não deixa ninguém indiferente. Amado por uns, combatido por outros. Amigo de Mujica e crítico das políticas insanas de Trump. Francisco se escandaliza diante do tráfico de pessoas, do drama dos refugiados, denuncia a onda de golpes de Estado na América Latina, assina um quase acordo com o Estado Palestino. Não estranha que entre os principais adversários de Francisco estão os capitalistas neoliberais. Logo na primeira Exortação Evangélica, Evangelii Gaudium, Francisco deu o tom de seu Pontificado ao dizer “não a uma economia da exclusão e da desigualdade social”. Sua sensibilidade social salta aos olhos, tanto em suas declarações como em seus gestos. Segundo ele, “não se pode tolerar mais o facto de se lançar comida no lixo, quando há pessoas que passam fome”. Este problema ocorre “quando o dinheiro, em vez do homem, está no centro do sistema, quando o dinheiro se torna ídolo, homens e mulheres são reduzidos a simples instrumentos do sistema econômico e social”. O capitalismo deixado à sua própria sorte é um sistema que se move somente em função dos seus objetivos. O amor ao dinheiro é sua razão de ser.

 

O objetivo da economia e da política é servir a humanidade, começando pelos mais pobres e vulneráveis. “Na ausência de tal visão, toda a atividade econômica não tem sentido”. Portanto, não há futuro nesta “ditadura sutil” chamada capitalismoTodo sistema centrado no lucro converte o dinheiro em “esterco do diabo”. O Bispo de Roma retoma o ensinamento de Jesus: "Não se pode servir a Deus e ao dinheiro" (Mt 6, 24). Evangelho em estado puro contra o terrorismo da economia: “Há sistemas econômicos que, para sobreviver, devem fazer a guerra”.  

 

Sua proximidade com as multidões está fundamentada na Teologia do povo, braço argentino da Teologia da libertação. Para simbolizar a reabilitação desta teologia incompreendida por João Paulo II e desprezada por Bento XVI, Papa Francisco recebeu em audiência a Gustavo Gutierrez e beatificou Oscar Romero, bispo de San Salvador martirizado em 1980 pela extrema direita.

 

Francisco está dando uma guinada no interior da Igreja católica. Não hesita em romper com o centralismo clericalista ultraconservador: “É mau para a Igreja quando pastores se tornam príncipes”. Prefere uma Igreja ferida e enlameada por ter saído pelos caminhos, a uma Igreja doente de tão fechada sobre si mesma. A Cúria opõe grandes resistências. “Abençoem-me”, disse o pontífice aos fiéis na Praça São Pedro na noite de sua eleição. Sim, as multidões de pobres e descartados continuam te abençoando! Parabéns Francisco! Que venham mais quatro anos! Com misericórdia, o Senhor o elegeu... e o sustenta. 

*Élio Gasda: Doutor em Teologia, professor e pesquisador na FAJE. Autor de: Trabalho e capitalismo global: atualidade da Doutrina social da Igreja (Paulinas, 2001); Cristianismo e economia (Paulinas, 2016).

 

 

Fonte: www.domtotal.com

 

 

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