
Chuva, muita chuva, temporais, alagamentos, ruas intrafegáveis, trânsito parado, deslizamento de terras, soterramento de casas e de pessoas, mortes, feridos, desabrigados, o caos... Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador... o caos...
Esta semana foi marcada por desastres naturais que se transformaram em tragédias humanas. Somente no Rio já passam de 14 mil desabrigados, centenas de feridos e mais de duzentos mortos e outros cem desaparecidos...
Não fosse nossa incipiente consciência histórico-crítica acreditaríamos na vingança da natureza, na sentença dos céus, na cólera dos deuses... Pela tragédia, algumas autoridades estão culpando o tempo, a mudança climática, a meteorologia que falhou nas previsões... Outras autoridades culpam a sociedade por construir demais, irregularmente... Outras ainda culpam as próprias vítimas que moram ou moravam nas encostas ou em cima dos morros, como se isto fosse uma escolha natural delas. De fato, a culpa pode ser dividida entre todos esses “atores”, mas não na mesma medida.
É sabido que já estamos vivendo sob os efeitos do aquecimento global, que tem aumentado a intensidade dos fenômenos naturais. Contudo, dizer que a chuva foi a responsável pela tragédia é fugir do verdadeiro problema. O que a chuva fez foi expor essa que já era uma tragédia cotidiana, silenciosa, dos moradores pobres espremidos nas encostas e sob os morros, em condições precárias de habitação, desprovidos de qualquer infra-estrutura, vitimas da especulação imobiliária, dos baixos salários, da exploração do trabalho, da falta de oportunidades, do descaso e omissão do poder público.
A chuva simplesmente escancarou a tragédia da segregação geográfica da pobreza - realidade cada vez mais comum nas nossas cidades - uma alternativa prática e barata da industrialização e do crescimento econômico, às reformas de base como a agrária e a urbana, nunca realizadas nesse país.
Quer apostar? Quem fica com a maior fatia das obras públicas, o bairro rico ou o bairro pobre? Quem usufrui melhor dos seus impostos? Quem ocupa as melhores áreas para construção de suas casas, os ricos ou os pobres? Agora, quem constrói pendurado no morro ou no barranco do rio? É fácil responder, não?
Ah! você deve estar pensando, “mas todos sofreram com as chuvas”... sim, mas há uma diferença substancial entre quem teve seu carro molhado pela enxurrada e quem viveu a vida inteira com medo da chuva, e que agora perdeu sua casa e sua família inteira.
O governador do Rio disse que a culpa é da própria sociedade... Ele não deixa de ter razão, afinal, é a sociedade quem o elegeu, assim como elegeu todos os demais legisladores e gestores públicos para administrar a coisa pública.
Resumindo, a tragédia se deve muito mais pela ausência do Estado ou por sua presença discriminadora, mancomunada com a elite, sem um projeto de sociedade que fosse capaz de incorporar todas as pessoas.
Aqui em Rondônia vivemos também nossa tragédia particular cotidiana e silenciosa: além das enchentes, muita violência, crimes com requinte de crueldade, violência no trânsito, máfia do dinheiro público, abuso de poder, sensacionalismo e apelação na TV...
Também não é culpa dos céus ou ira dos deuses... Colhemos o fruto de escolhas passadas e atuais, que elegeu o progresso de uns poucos abastados em detrimento da grande maioria da população, que vive o drama da falta de saúde, educação, salário, moradia, dignidade, cidadania...
Texto: Mauro Porto, Rádio Comunitária FM 104.9 (Programa Trocando em Miúdos, 10 de abril de 2010)