
Era 24 de julho de 1985, meio dia. Sobre um mata-burro da estrada de chão que sai da Fazenda Catuva, no município de Aripuanã, hoje Rondolândia, sete jagunços, armados de espingardas e pistolas, começam um tiroteio endiabrado.
O alvo é um jipe Gurgel, que acaba de sair da Fazenda e dobrar uma dupla curva. As balas atingem em cheio o veículo que pára no meio da estrada. Os gritos de ódio dos jagunços se misturam aos gritos de dor dos dois ocupantes do carro, que fogem procurando alcançar abrigo.
O primeiro, Adílio de Souza, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Cacoal, ferido no rosto pelos estilhaços de vidro, corre rápido e consegue ganhar a floresta. O que está ao volante, atingido pela rajada de tiros, tenta fugir pelo lado oposto em direção à mata, mas atrai o fogo mais violento dos jagunços e infelizmente cai ferido. Correndo em sua direção, os pistoleiros descarregam ferozmente suas armas sobre ele, crivando-o de balas e deixando-o numa poça de sangue.
O assassinado é padre Ezequiel Ramin, missionário comboniano e vigário da Paróquia Sagrada Família, município de Cacoal, diocese de Ji-Paraná, Estado de Rondônia. Trinta e dois anos de idade. Cinco anos de padre.
Padre Ezequiel, teu sangue fecunda este chão e anima nossas CEBs!
A morte de padre Ezequiel mergulha na consternação 300 famílias de posseiros que ocupavam uma parte dos 30 mil hectares da fazenda Catuva, divisa de Mato Grosso e Rondônia. Sua morte apaga a esperança dos índios Suruí, presentes na região, que há tempo clamam por respeito à sua terra.
Ezequiel, tua voz e teu grito é nossa voz e nosso grito de hoje! Não irão nos matar! E ainda que morra nosso corpo, nossa voz ecoará na boca de muitos e muitas outras que virão depois de nós! Teu sangue fecunda este chão e anima nossas CEBs! Comprometemo-nos, a partir de hoje, a sempre lutar pela justiça. Sem medo de calar. Sem medo de sermos calados. Não aceitaremos suborno, nem ficaremos ao lado dos grandes. Nosso lado é o lado que Jesus Cristo ficou até a morte.
CELEBREMOS A MEMÓRIA DE NOSSO MÁRTIR, DIA 24 DE JULHO, ÀS 18 HORAS, NA PARÓQUIA SAGRADA FAMÍLIA DE CACOAL.