Objetivo Geral:
“Evangelizar a partir do encontro com Jesus Cristo
nesta realidade amazônica,
como discípulos missionários/as,
à luz da evangélica opção preferencial pelos pobres,
promovendo a dignidade da pessoa, renovando a comunidade,
participando da construção de uma sociedade justa e solidária,
‘para que todos tenham Vida
e a tenham em abundância’
(Jo 10,10).”
Apresentação
As novas Diretrizes Diocesanas aprovadas na última Assembleia Diocesana de Pastoral querem ser orientadoras da atividade evangelizadora da nossa Diocese de Ji-Paraná para os anos de 2011 a 2014.
Permaneceram substancialmente as mesmas, com algumas pequenas alterações de redação e de propostas, sendo, assim, um reforço a quanto já está acontecendo nas Comunidades.
As Diretrizes devem ser assumidas por todos e, para que isto aconteça, é necessário que se faça uma leitura atenta que possa traduzir as palavras em ação, assumindo, desta maneira, um plano de evangelização condizente à nossa realidade pastoral.
É meu desejo que estas Diretrizes façam parte da reflexão nos grupos pastorais, movimentos e nas reuniões dos Conselhos Paroquiais de Pastoral para criar unidade de ação e maior entusiasmo e participação nas prioridades assumidas.
Confio todos os resultados benéficos destas Diretrizes, à proteção da Virgem Maria, Mãe da Igreja, a fim de que nos levem a servir melhor o Reino de Deus revelado por seu Filho Jesus.
Com copiosas bênçãos.
+ Dom Bruno Pedron sdb
Bispo Diocesano de Ji-Paraná – RO
Introdução
1. À luz dos Documentos da Igreja, a Diocese de Ji-Paraná se compromete a ser discípula missionária para que “todos tenham Vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10).
2. Agradecemos ao Pai a graça da fé e a missão à sua Igreja confiada. Agradecemos a todos e todas que, como Igreja, tornam a nossa Diocese mais solidária, justa e fraterna, e àqueles que iluminam com seu testemunho para além dos limites geográficos de nossa Igreja Particular.
3. Somos discípulos/as missionários/as de Jesus Cristo e, como tal, somos chamados/as a proclamar o seu Reino de Vida. Nossa missão deve ser a de levar vida plena a todos. As condições em que se encontram muitas pessoas em nossa região nos desafiam a um maior compromisso em favor da cultura da vida.
4. Para cumprirmos com nossa Missão, devemos responder aos grandes problemas de nosso povo, da sociedade. A tarefa de evangelizar é de todos. A Missão é integrante da identidade cristã, exigindo conversão pessoal, comunitária e pastoral.
Capítulo I
A Realidade
5. A Diocese está situada na região central-sul do estado de Rondônia e noroeste do estado do Mato Grosso. De acordo com dados do IBGE (2010) abrange uma área de 91.780 km2 e tem 684.788 habitantes. Limita-se com a Arquidiocese de Porto Velho e Diocese de Guajará-Mirim em Rondônia e Dioceses de Juína e Cáceres, Mato Grosso.
6. A Igreja Particular de Ji-Paraná está organizada em seis Regionais. São 23 Paróquias que atendem 29 municípios.
Regional Norte
Paróquias: São João Batista, em Jaru, abrangendo também os municípios de Theobroma e Governador Jorge Teixeira; Nossa Senhora dos Migrantes, em Mirante da Serra, atendendo, também, parte dos municípios de Nova União, Urupá, Jaru e Governador Jorge Teixeira; Nossa Senhora Aparecida, em Ouro Preto do Oeste, abrangendo parte dos municípios de Teixeirópolis e Nova União e Nossa Senhora da Guia, em Vale do Paraíso.
Regional Centro
Paróquias: São João Bosco, Catedral; São José, Nossa Senhora de Fátima e São Sebastião, todas no município de Ji-Paraná. A Paróquia São Sebastião atende parte dos municípios de Ouro Preto do Oeste, Urupá e Teixeirópolis.
Regional Centro-Oeste
Paróquias: Cristo Ressuscitado, em Alvorada d’Oeste; Santíssima Trindade, em Urupá e São João Batista, em Presidente Médici, abrangendo parte do município de Castanheiras.
Regional da Mata
Paróquias: Nossa Senhora da Penha, em Alta Floresta d’Oeste; Divino Espírito Santo, em Nova Brasilândia d’Oeste, atendendo parte do município de Novo Horizonte do Oeste; Nossa Senhora Aparecida, em Rolim de Moura e parte do município de Novo Horizonte do Oeste e Santa Luzia, em Santa Luzia d’Oeste, abrangendo os municípios de Alto Alegre dos Parecis e Parecis.
Regional Sul
Paróquias: Sagrada Família, em Cacoal; Nossa Senhora Aparecida, em Espigão d’Oeste; Sagrado Coração de Jesus, em Ministro Andreazza, Nossa Senhora de Fátima, em Pimenta Bueno, abrangendo os municípios de Primavera de Rondônia e São Felipe d’Oeste e Paróquia Nossa Senhora Auxiliadora de Rondolândia, Mato Grosso.
Regional Extremo-Sul
Paróquias: Nossa Senhora das Graças e Nossa Senhora Auxiliadora, em Vilhena, atendendo, também, o município de Chupinguaia.
Ontem e hoje
7. A história da Diocese foi marcada pela migração. Nos últimos anos ocorreu um grande êxodo rural. Viu-se a saída de povo para outros países, sempre buscando sonhos, procurando “melhoria de vida”. Uns se vão, e outros já retornam. Nesse vai e vem, a família nem sempre permanece junta.
Povos Indígenas
8. Povos da região de abrangência da Diocese de Ji-Paraná: Uru-Eu-Wau-Wau, Amondava, Gavião, Arara, Zoró, Surui, Cinta Larga, Sakirabiar, Aikanã, Nanbikwara, Latundê, Tupari, Sabanê, Makurap, Kanoé, Aruá, Diahoí, Jaboti, Arikapu Wayoró, Kwazá e Kassupá.
Meios de Comunicação
9. O povo sofre a influência negativa dos meios de comunicação. Ainda é pequena e pouco valorizada a presença de emissoras católicas ou programas católicos. A mídia contribui para a banalização da religião, transformando-a num espetáculo de entretenimento e também a reduzindo à esfera privada.
Situação Econômica
10. Existe muita desigualdade social, cultural e econômica.
Causas: a) economia globalizada;
b) concentração de poder, de riqueza e informação nas mãos de poucos;
c) a produtividade e o capitalismo desenfreado como valores se sobrepondo à vida digna;
d) crescimento da exclusão;
e) desemprego;
f) crianças, jovens, adolescentes e idosos em situação de risco;
g) exploração do trabalho infantil;
e) trabalho escravo;
f) prostituição;
g) gravidez na adolescência;
h) caos na saúde pública.
Consequências:
a) esmorecimento e o desânimo dos trabalhadores pelas lutas coletivas;
b) desencanto e desconfiança com relação aos poderes públicos;
c) agressão severa à vida dos seres humanos e do Planeta.
A Questão Rural
11. As populações rurais sofrem as consequências da pobreza, agravada pela falta de acesso à terra própria, de financiamento adequado, de condições de vida digna e de apoio à agricultura familiar. A falta de uma reforma agrária e punição exemplar a quem faz da terra apenas um negócio, deixa a terra nas mãos de poucos e incrementa a violência no campo.
12. Em Rondônia, a política agrícola está sendo organizada em vista da exportação:
a) promoção e valorização da monocultura (soja);
b) pecuária extensiva e
c) cultura da cana.
13. A expulsão dos pequenos proprietários de suas terras enfraquece a agricultura familiar e provoca o desânimo nas comunidades. O povo vai perdendo sua identidade rural. A maior vítima atingida é a juventude rural que não enxerga perspectivas futuras de vida digna. O êxodo rural de inúmeras famílias provoca a migração para as novas fronteiras agrícolas, para as cidades e para o exterior.
Migração
14. A migração é um fenômeno constante em nossa Diocese, sempre em busca de melhores condições de vida.
15. Novos rostos: os retornados e os trabalhadores das usinas de cana.
16. Consequências: o inchaço nas periferias, o aumento do desemprego, a destruição de muitas famílias com suas derivações – casais de segunda união, analfabetismo, alcoolismo, crianças e adolescentes de rua, droga, prostituição - e a consequente miséria. Inúmeras famílias são condenadas a residirem em ambientes que ferem a sua dignidade.
Urbanização
17. As cidades crescem desordenadamente, sem planejamento e sem infraestrutura mínima. A população fica desatendida nas suas necessidades básicas: saúde, educação e emprego. A Igreja ainda busca um “jeito” de evangelizar na e a cidade.
Violência
18. O crescimento da violência, do tráfico das drogas, da prostituição, da exploração sexual infantil, mostra que a banalização da vida não se restringe às grandes cidades, mas se faz presente em nossa Diocese, tanto na área urbana quanto no campo. Embora sua causa seja conhecida, pouco se tem feito para a compreensão e vivência de uma cultura de paz.
Saúde, Educação e Meio Ambiente
19. Não se percebe muito interesse por parte do Legislativo, Executivo e Judiciário na elaboração e cumprimento de Políticas Públicas adequadas e necessárias:
a) saúde curativa é precária;
b) falta manutenção de estradas federais, estaduais e municipais;
c) educação voltada basicamente para o meio urbano, escolas inadequadas, falta de professores e também de vagas;
d) conselhos municipais nem sempre a serviço da população;
e) degradação do meio ambiente acelerada: desmatamento irresponsável, queimadas, uso indiscriminado dos agrotóxicos e outras agressões à natureza, provocando a diminuição e o envenenamento da água e do ar e enfraquecimento da terra com sérios riscos para a saúde da população e o desequilíbrio do meio ambiente, sem contar com a poluição sonora e visual;
f) serviços de saneamento básico mínimos; há pouco progresso no tratamento e no fornecimento de água potável para o povo; quase não há canalização e tratamento dos esgotos e o lixo a céu aberto torna-se uma ameaça à saúde da população.
Situação Religiosa
20. São poucos os católicos que assumem compromissos de ordem política e social. Embora se ofereça formação para incentivar e auxiliar na atuação política, social e cultural, poucos participam das Escolas da Diocese como Fé e Política e Teologia para leigos.
21. Embora tenha havido certo progresso, ainda há muito caminho a ser percorrido para que haja mais partilha dos recursos financeiros entre as comunidades, paróquias e Diocese. A grande maioria dos católicos não contribui com o dízimo e nem com a oferta na celebração. Os parcos recursos inviabilizam muitas ações evangelizadoras.
22. Em geral, poucas pessoas se vêem obrigadas a assumirem muitos serviços nas comunidades e paróquias, porque muitos se omitem.
23. O individualismo é percebido tanto na sociedade quanto na religião. Escolhe-se a religião que mais se ajuste ao seu jeito de viver e ser, mesmo que seja uma colcha de retalhos formada por aspectos de várias crenças, ritos, normas, doutrinas.
24. É grande influência de evangélicos nos meios de comunicação e, também, com forte presença na política.
25. Vivemos o fenômeno da mobilidade religiosa, não só da Igreja Católica para outras Igrejas, mas entre essas igrejas que denominamos evangélicas. Entretanto, apesar dos números e do forte proselitismo praticado por grupos evangélicos, há uma estabilização maior dos católicos junto à nossa Igreja e um retorno de fieis.
26. Diante disso, cabe uma avaliação da qualidade da presença católica junto ao povo. Isso exige uma verdadeira conversão pastoral, em que se vá além de uma pastoral de mera conservação para uma pastoral decididamente missionária. Podemos, quem sabe, evitar a perda do profetismo, e o contínuo enfraquecimento das pastorais sociais com consequente esvaziamento e sinais de cansaço e desânimo.
27. Persiste a busca e exigência dos Sacramentos sem a participação na vida da Igreja e sem compromisso de uma vida de fé transformadora na sociedade. Sente-se um enfraquecimento na ousadia, na coragem, na vivência dos valores evangélicos, na defesa da vida, na ação missionária. Isto poderá comprometer a espiritualidade encarnada e uma mística profética.
28. Olhando a nossa Igreja sob o ponto de vista comunitário sente-se a falta de novas iniciativas pastorais, o enfraquecimento da vitalidade das CEBs, a diminuição dos Grupos de Reflexão, em sua grande maioria frequentados quase somente por mulheres.
29. Constata-se a tendência à inversão de sentido da experiência religiosa. Em lugar de vivência de uma fé em relação a Deus e ao próximo, é vista numa ótica utilitarista, um meio de busca de bem-estar interior, de terapia ou cura de males, de sucesso na vida e nos negócios, nos moldes da denominada "teologia da prosperidade".
Sinais de Esperança
30. Entretanto, nem tudo são sombras. Surgiram e surgem novos sinais de esperança como muitas organizações alternativas não governamentais e movimentos sociais sem vinculação partidária. Há uma crescente consciência da população em exigir melhorias e um esforço do Estado nos campos da saúde, educação, segurança alimentar, previdência social, acesso à terra e à moradia, criação de emprego e apoio a organizações solidárias.
31. Já é possível vislumbrar a afirmação do valor fundamental da pessoa humana, de sua liberdade, consciência e experiência, bem como a busca do sentido da vida e de uma espiritualidade mais sólida. Podemos perceber a presença do Espírito nos movimentos sociais, que se articulam em favor das grandes causas da humanidade - a luta contra as discriminações, a promoção dos direitos da mulher, a preservação da ecologia, a defesa dos direitos de culturas e etnias como a indígena e afro-descendente, a busca da justiça social, campanha da moralização da política e de "um outro mundo necessário", muitas delas motivadas pelo próprio Evangelho.
Capítulo 2
Discípulos missionários em permanente estado de missão
A Constante Missão Evangelizadora na Igreja
32. Missão da Igreja:
a) evangelizar, anunciar a Boa Nova do Reino de Deus proclamada e realizada por Jesus Cristo (EN, n.14). O centro deste primeiro anúncio é a pessoa de Jesus. Todas as pessoas batizadas são chamadas à missão de serem na Igreja e no mundo sal e luz, que dá sabor e ilumina a realidade da vida, muitas vezes marcada pelo desencanto e pela falta de esperança (Mt 5, 13-16).
b) Ser sinal de esperança e de vida para o mundo, anunciar a salvação integral da pessoa humana e denunciar as injustiças sociais. Salvar a pessoa implica também salvar o mundo de tudo aquilo que causa morte. A defesa da vida e da dignidade humana deve perpassar o ser missionário do cristão. O próprio Cristo disse: “Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10, 10).
33. A Igreja na Amazônia vive sua missionariedade no anúncio do Evangelho e na defesa das várias formas de vida, entre as quais aquelas que se encontram ameaçadas. O anúncio do Evangelho é um imperativo a todas as pessoas batizadas. Uma bonita forma de ser missionário/a é testemunhar Jesus Cristo com palavras e com atitudes.
A Comunidade Missionária
34. Seguir Jesus Cristo conduz a pessoa à comunhão íntima com Ele, com o Pai e o Espírito Santo. A Trindade é a fonte que alimenta a vida de comunhão e missão da comunidade.
35. O chamado a ser discípulo-missionário/a é convocação a viver a comunhão na Igreja. No ser missionário há uma ligação profunda entre comunhão e missão, não podendo nenhuma delas ficar fora.
36. A comunidade evangeliza quando se torna “comunidade de comunhão” e vive o amor fraterno. É o testemunho de vida que cativa os membros da comunidade e faz com que novas pessoas abracem a mesma causa. A Igreja – Povo de Deus – é chamada a ser no mundo testemunho do amor, da verdade e da justiça. A nossa sociedade precisa hoje, mais do que nunca, de pessoas que testemunhem o Evangelho na prática da vida.
37. Fortalecida pela Palavra e pela comunhão eucarística, a Igreja é “casa e escola de comunhão”, onde quem segue Jesus comunga da mesma fé, cultiva o amor e a esperança a serviço da evangelização.
As Exigências da Ação Evangelizadora
38. Exigências da missão:
Serviço – A Evangelização se dá mediante a prontidão do/a evangelizador/a que se coloca a serviço do anúncio do Evangelho, no dinamismo da libertação integral da pessoa humana. Toda vocação é um dom para estar a serviço da comunidade. Assim, quem assume um ministério na comunidade deve estar disponível a servir. O discípulo-missionário é um servidor de Jesus Cristo que doa sua vida para que outros tenham mais vida.
Diálogo – Esta qualidade possibilita o encontro com a outra pessoa. Num mundo marcado pela diversidade religiosa, o missionário/a precisa saber dialogar. A própria realidade interpela a abertura ao diferente. É preciso manter a convicção da fé católica, mas também estar aberto para reconhecer nas outras convicções de fé as “sementes do verbo”.
Anúncio – A centralidade da dinâmica missionária deve ser sempre o anúncio, a proclamação da Boa Nova de Jesus Cristo, Filho de Deus encarnado na realidade humana, morto e ressuscitado e que oferece o dom da salvação e da misericórdia de Deus a todos que aceitam o Seu projeto. O cristão é o anunciador da mensagem de vida para todos.
Testemunho – A partir da aceitação da fé e da vida de comunidade o discípulo-missionário é chamado a testemunhar o Evangelho com palavras e ações. A dinâmica missionária se concretiza numa prática de vida marcada pela vivência do amor, da justiça e da caridade. Assim, a celebração do banquete eucarístico se estende numa vida de doação a serviço dos mais necessitados, numa atitude de solidariedade e partilha. O testemunho se torna concreto numa prática de fé a serviço da vida.
36. Estas quatro exigências estão intimamente interligadas e são essenciais na evangelização. O/a discípulo-missionário/a se coloca a serviço da evangelização numa atitude de diálogo buscando anunciar Jesus Cristo e testemunhar com palavra e com atitude de vida o Evangelho. Um jeito importante de viver o testemunho é na comunhão eclesial, para que outros creiam.
37. A missão evangelizadora está sempre a serviço da vida, sobretudo numa realidade marcada por situações desumanas e de constantes ameaças à vida. Esta realidade de exploração e morte requer missionários dedicados à causa do Reino. O serviço da evangelização acontece no diálogo, no anúncio e no testemunho do Evangelho em defesa da vida.
Vocação, Espiritualidade e Missão na Vida da Comunidade
38. O discípulo/a é chamado/a por Jesus Cristo para unir-se a Ele e participar de sua Vida de Missão, sendo continuador/a de Sua ação evangelizadora. Assume as atitudes próprias do Mestre e se coloca a serviço da comunidade para anunciar a Boa nova do Reino de Deus. Nesta pertença a Jesus Cristo, a pessoa fica também interligada à Sua vida de missão. Ser seguidor/a de Jesus é dar continuidade a Sua vida de missão na realidade do mundo de hoje.
39. Esta dinâmica evangelizadora se realiza a partir da diversidade de carismas, ministérios e serviços, onde todos colaboram para o único Corpo de Cristo. Assim, cada batizado/a possui dons que precisam ser cultivados. Cabe à comunidade orientar e cultivar os diferentes carismas suscitados pelo Espírito Santo, proporcionando a cada um e a cada uma a missão que lhe é própria na vida de comunidade.
40. Jesus em sua vida de missão priorizava o chamado individual, assim também deve ser na comunidade. Esta forma de chamado, centrada na singularidade de cada pessoa, reforça a missão específica e a responsabilidade de cada um/uma na comunidade. A pessoa se sente mais comprometida com a missão assumida. Ela sabe que a comunidade valoriza a sua identidade e lhe confia tal serviço. A missão está intimamente ligada a nossa identidade cristã. O/a Seguidor/a de Jesus Cristo é chamado a participar de Sua vida de missão na comunidade e no mundo. Ser fermento de transformação (Mt 13, 33).
41. A participação na ação evangelizadora de Jesus requer do missionário fortalecer a vocação e alimentar a espiritualidade através de uma mística profunda, ela que é o alimento que fortalece a espiritualidade. Fortalece, também, a pessoa para não desistir facilmente de suas convicções.
42. A mística se dá a partir de:
a) escuta atenta da Palavra de Deus tanto na Bíblia como no dia-a-dia. Deus que fala também através da realidade.
b) Participação na comunhão eucarística, nas celebrações dominicais, na educação da fé: nos Grupos de Reflexão, pastorais, serviços, ministérios, nos movimentos eclesiais e sociais.
c) Entrega ao dom do Espírito que orienta a vida de missão da comunidade, e a fortalece nos momentos de dificuldades.
e) Entrega de si mesmo, a serviço da comunidade.
f) Assumir a Missão Continental, conforme os compromissos do Congresso Americano Missionário (CAM 3).
43. Estes são alguns aspectos fundamentais da vida de espiritualidade do/a discípulo-missionário/a na Diocese de Ji-Paraná. O cristão que alimenta a sua fé, na Eucaristia e na Palavra de Jesus Cristo dificilmente deixará se levar por outras propostas que são oferecidas no mundo de hoje. O/a discípulo-missionário/a de Jesus Cristo é alguém que cultiva uma vida de fé e se coloca a serviço da comunidade para que nela o Evangelho se torne realidade através da vivência do amor, da partilha e da solidariedade.
A Formação dos Seguidores de Jesus Cristo
44. Na sociedade atual as mudanças são constantes e cada vez mais se faz necessário investir na formação dos membros de nossas comunidades. As lideranças das comunidades e, principalmente, os educadores/as da fé constantemente são desafiados a darem respostas às interrogações do mundo contemporâneo e, mais ainda, nesta nossa região. Por isso uma boa formação para que possam com muita convicção darem respostas seguras a tais questionamentos a partir da fé que professamos (1Pd 3, 15), é imprescindível.
45. Aspectos importantes na formação do/a discípulo-missionário:
o encontro com Jesus Cristo – É o Senhor quem nos chama a segui-lO. A pessoa cristã precisa descobrir o sentido profundo deste encontro com Jesus Cristo. O Encontro com Jesus Cristo marca o início da vida cristã. A comunidade, através da educação da fé, proporciona aos educandos/as o encontro com Jesus Cristo. É um longo processo em que a pessoa vai se identificando com a vida de missão do Mestre e passa a colocar-se a serviço da comunidade.
a conversão – É a resposta inicial de quem escuta a voz de Jesus Cristo e deseja segui-lO. Este seguimento leva a nos identificarmos com sua missão e deixarmos para trás tudo aquilo que impede de servirmos à comunidade. Esta conversão exige mudança de atitude, de vida e de mentalidade.
o discipulado – O discipulado se dá a partir do conhecimento, do amor e do seguimento a Jesus Cristo. O seguimento a Ele nos conduz a conhecermos melhor, através de uma educação da fé permanente, o mistério de Sua pessoa, Seu exemplo e doutrina. Com isso, passamos a conhecer melhor o Mestre para podermos colocar em prática na vida da comunidade Sua missão a nós confiada.
a comunhão – O Documento de Aparecida destaca que “não pode existir vida cristã fora da comunidade: nas famílias, nas paróquias, nas comunidades de vida consagrada, nas comunidades de base, nas outras pequenas comunidades e movimentos” (DA n. 278). A comunidade é o local privilegiado para o aprendizado e a vida de comunhão. Assim como os primeiros cristãos, os discípulos e discípulas devem cultivar uma vida fraterna e solidária. A comunhão nos conduz a unidade. Todos/as pertencemos ao mesmo corpo e devemos nos manter unidos (Rm 12,4-5).
a missão – O discípulo/a que acolhe a mensagem de Jesus não fica contente em guardá-la somente para si, mas tem o desejo de compartilhá-la com os outros, manifestando assim a alegria de transmitir esta Boa Nova de Jesus Cristo a outras pessoas. Discipulado e missão estão intimamente interligados. O discipulado nos impulsiona à missão de evangelizar.
46. Dimensões do processo de formação do discípulo/a:
a) experiência religiosa – que nasce do encontro com Jesus Cristo;
b) vivência comunitária – que proporciona o acolhimento fraterno da pessoa na comunidade levado-a a sentir-se integrada a ela;
c) formação bíblico-catequética – a comunidade cresce a partir do aprofundamento da Palavra de Deus, do conhecimento e da vivência da nossa fé, que proporcionam um amadurecimento da experiência religiosa e explicitam melhor a nossa missão na comunidade;
d) compromisso missionário – a acolhida da mensagem do Evangelho nos impulsiona a irmos ao encontro das pessoas afastadas e das não praticantes, interessarmo-nos pela situação delas e convidá-las para retornarem ao seio de nossa comunidade.
47. A Igreja Diocesana tem entre suas prioridades esse processo formativo, que visa essencialmente à formação de suas lideranças:
a) participação dos leigos e leigas nas equipes de formação;
b) responsabilidade das paróquias em dispor meios que possibilitem uma formação integral das lideranças de comunidades, dos coordenadores de pastorais e dos educadores/as da fé;
c) ir além do âmbito religioso no sentido de formar também cidadãos conscientes de sua missão no mundo, no que diz respeito ao engajamento nas questões sociais, políticas, econômicas e ecológicas.
48. Este incentivo à comunhão e participação dos leigos na Igreja e na sociedade é uma tarefa primordial do Conselho Diocesano de Leigos com apoio e acompanhamento dos agentes de pastoral, que deve articular os fiéis para tal missão.
Ministérios da Palavra, da Liturgia e Caridade
A Igreja, devido à sua fidelidade a Cristo e à missão dele recebida, tem a responsabilidade e a obrigatoriedade de oferecer o acesso à Palavra de Deus, à celebração da Eucaristia e aos demais sacramentos, e de cuidar da caridade fraterna e do serviço dos pobres. É através desses “três serviços ou ministérios” (tríplice missão) que a Igreja cumpre a sua missão de discípula de Cristo e testemunha a sua fidelidade ao seu Mestre.
Ministério da Palavra:
49. A Palavra de Deus proclamada pela Igreja é decisiva para os cristãos/ãs, pois ela possibilita a acolhida livre ao anúncio salvífico da pessoa de Jesus Cristo, pela ação do Espírito Santo. Não é por decisão ética ou por uma grande idéia que a pessoa torna-se cristão, mas através do encontro com uma pessoa, que dá um novo sentido à sua vida. O poder do Espírito e da Palavra contagia as pessoas e as leva a escutar a Jesus Cristo, a crer nele como seu Salvador.
50. O anúncio e a acolhida da Palavra são fundamentais para a vida e a missão da Igreja e ocupam lugar central na liturgia. Cristo está presente em sua palavra, pois é Ele quem fala quando se lêem as sagradas Escrituras.
51. A pastoral bíblica: nas paróquias, faz-se necessário uma animação bíblica da pastoral, que seja escola de interpretação ou conhecimento da Palavra, de comunhão com Jesus e de oração através da Palavra, de ajudar na evangelização inculturada e na aproximação da Sagrada Escritura. Não existe só uma maneira de se ler a Bíblia. Todavia, entre as muitas formas, existe uma privilegiada: a Lectio Divina (exercício da leitura orante da Bíblia), que é feito de cinco momentos (leitura, meditação, oração, contemplação e ação).
52. O ministério da catequese: O ministério da Palavra exige o ministério da catequese a todos porque fortalece a conversão inicial e permite que os discípulos/as missionários/as possam perseverar na vida cristã e na missão em meio ao mundo que os desafia. As famílias que são chamadas a introduzir os filhos no caminho da iniciação cristã nem sempre estão preparadas para assumir sozinhas a tarefa de educá-los na fé. Diante desta realidade, a Catequese Renovada surge como uma grande luz, não se limitando apenas a uma catequese doutrinal destinada somente às crianças e aos jovens, mas uma catequese do discipulado de Jesus, priorizando a catequese para adultos. Uma catequese não ocasional, mas permanente, catecumenato.
53. O mutirão de formação bíblico-catequética: É urgente a necessidade do fortalecimento da cultura cristã, de fomentar os princípios evangélicos em todos os níveis educacionais:
a) continuar oferecendo aos fieis leigos oportunidades de formação bíblico-teológica;
b) apoiar o Ensino Religioso nas escolas públicas e particulares;
c) formar professores habilitados e competentes;
d) cuidar e incentivar a evangelização da Juventude.
54. Pela pregação e testemunho da Palavra todos podem ter acesso à fé e à salvação, chegando a conhecer o Deus único e verdadeiro, e a Jesus Cristo, aquele que o Pai enviou.
55. A evangelização comporta também o anúncio e a proposta moral. A força e a eficácia da evangelização residem, mais do que o anúncio das verdades, na denúncia dos contravalores evangélicos, nos fundamentos e conteúdos da moral cristã, no testemunho da palavra vivida. O Ministério da Palavra, pelo chamado do Espírito, revela-se no carisma da Profecia. Como em toda a sua história, nas últimas décadas, a Igreja foi interpelada e iluminada pelo testemunho de inúmeros profetas e mártires. Profecia e Martírio são legados da memória da Igreja chamada a testemunhar, com coragem e liberdade, a Palavra que defende a vida e julga os poderes deste mundo.
Ministério da Liturgia:
56. A liturgia ocupa a ação evangelizadora da Igreja, num lugar central. Nela o discípulo realiza o mais íntimo encontro com o seu Senhor e, dela, recebe a motivação e a força máxima para a sua missão na Igreja e no mundo.
57. Em sentido estrito, a Liturgia é a celebração do mistério pascal da morte e ressurreição de Cristo e de toda a história da salvação. Ela é ação ritual, que se realiza em sinais e palavras:
a) Os Sete Sacramentos: presença visível e sensível do amor de Deus. A celebração litúrgica não se limita somente em ação ritual bonita e bem organizada, mas implica necessariamente um compromisso com a transformação da realidade em vista do crescimento do Reino de Deus.
b) O Domingo: celebração do Mistério Pascal. É o principal dia de festa. É o dia em que a família se reúne, na Comunidade Eclesial de Base, para “escutar a Palavra e repartir o Pão consagrado, recordar a ressurreição do Senhor na esperança de ver o dia sem ocaso, quando a humanidade inteira repousar diante do Pai” (Missal Romano, Prefácio do Domingo do Tempo Comum, IX). É preciso enriquecer a celebração dos cultos, valorizando o serviço dos leigos e leigas.
c) Piedade Popular: expressão simples da vivência da fé do povo de Deus.
d) Ofício Divino: oração do povo de Deus, excelente escola e referência fundamental para nossa oração individual. Todavia, não é só para ministros ordenados, mas também para leigos, para celebrá-lo individual ou comunitariamente. Seu objetivo não é substituir as celebrações nas Comunidades Eclesiais de Base, mas, sim, complementá-las.
e) A Música Litúrgica: parte integrante de ação ritual, a música litúrgica tem grande eficácia pedagógica. Tem a capacidade especial de atingir os corações e fazê-lo penetrar no ministério celebrado.
f) O Espaço Litúrgico: deve ser funcional, favorecer o encontro entre as pessoas e o encontro com Deus. A beleza, a dignidade e a simplicidade do espaço devem estar em sintonia com a beleza do Mistério Pascal de Cristo.
58. A Pastoral Litúrgica compreende todos os esforços e iniciativas para animar a vida litúrgica de uma comunidade, paróquia, Diocese, região, levando em conta sua realidade histórica, cultural, social, eclesial, de modo que todos os cristãos possam participar da liturgia de forma ativa, consciente, plena e colher dela os frutos espirituais.
O Ministério da Caridade:
59. A Palavra e o Sacramento são fontes da vida da Igreja e centro da vida cristã, mas é na caridade, amor-doação que está o mais alto dos dons. Podemos afirmar que toda atividade da Igreja é a manifestação de um amor que procura o bem integral do ser humano: “eu vim para que todos tenham vida, e vida em plenitude” (Jo 10,10). “Como eu vos amei, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros. Nisto, todos conhecerão que são meus discípulos” (Jo 13,34-35). Portanto, a razão de a Igreja existir é a prática do amor cristão na sua missão evangelizadora.
60. A sociedade globalizada, que privilegia o lucro e a produtividade, que trata o ser humano como coisa descartável, faz surgir novos rostos pobres, novos excluídos e marginalizados, migrantes, vítimas de violência, os refugiados, os sequestrados, os portadores do vírus HIV, os dependentes das drogas, os idosos, meninos/as de rua, analfabetos digitais... e tantos outros rostos. Nesse mundo de rápidas mudanças, de banalização da vida e dos valores éticos-morais, a Igreja é interpelada a se fazer presente com a sua doutrina e com o seu profetismo. Tocar os doentes, as feridas, as coisas “impuras”, a exemplo do seu Mestre. Diante desta nova realidade, novos rostos de pobres, a opção preferencial pelos pobres exige uma pastoral voltada aos construtores da sociedade. É importante que a Igreja forme pessoas em nível de decisão: empresários, políticos formadores de opinião no mundo do trabalho.
Capítulo 3
Pistas de ação para a missão evangelizadora
Promover a dignidade da pessoa
Pistas de ação:
61. Acolhida:
a) ir ao encontro de todas as pessoas, de modo especial, dos que experimentam alguma forma de exclusão.
b) Acolher no respeito implica atenção personalizada, através da capacitação de quem possa "acompanhar espiritual e pastoralmente a outros".
c) Preparar encontro e a escuta exigem, com serviços e ministérios próprios.
d) Visitar as famílias, os locais de trabalho, as moradias de estudantes, as prisões, indígenas, ribeirinhos, caminhoneiros, praças públicas e outros.
e) Promover oportunidades de práticas solidárias ou participação em projetos comuns, experiências de amizade e reciprocidade.
62. Acompanhamento: É preciso acompanhar a pessoa em suas diversas etapas e situações da vida:
a) a infância, adolescência e juventude;
b) as pessoas com necessidades especiais;
d) os moradores de ruas e pessoas doentes;
e) os idosos: intensificar o respeito e sua valorização, acompanhando-os em sua situação especial e aprendendo de sua sabedoria de vida e apoiar políticas sociais e solidárias que atendam às suas necessidades;
f) os conselhos municipais, com participação efetiva. A Igreja precisa incorporá-los ainda mais na missão evangelizadora;
g) as mulheres, para que possam participar plenamente da vida familiar, eclesial, cultural, social, política e econômica, criando-se espaços e estruturas que favoreçam sua inclusão. No campo eclesial, impulsionar uma organização pastoral que promova o protagonismo das mulheres, com presença nos espaços de decisão e acesso aos ministérios.
h) a nossa pastoral convencional é questionada pela menor presença de homens no ministério da Igreja. É preciso criatividade para acolhê-los e auxiliá-los no engajamento comunitário.
63. A família. Um olhar atendo deve ser dirigido à família, em sua diversidade, um dos eixos principais de toda a ação evangelizadora:
a) Catequese familiar: os pais são os primeiros catequistas.
b) Uma profunda e séria preparação ao matrimônio e acompanhamento aos casais.
c) Acolhida aos casais em segunda-união e seus filhos, acompanhando-os e incentivando-os a participar da vida da Igreja.
d) Cobrança de políticas públicas em prol da família com iniciativas de solidariedade em relação a pessoas, famílias e grupos atingidos pela miséria, fome e tantas formas de sofrimento.
e) Atenção e carinho para com as famílias marcadas pela violência, o alcoolismo, o machismo, o desemprego e, principalmente, as drogas.
f) Cuidado carinhoso às famílias de migrantes brasileiros no exterior.
64. Trabalho e moradia: acompanhar as alegrias e as preocupações dos trabalhadores, fazendo-nos presentes nos locais de trabalho, nos sindicatos, associações de classe, lazer e empresas. É preciso abraçar a luta contra o desemprego, inclusive buscando-se caminhos alternativos para a geração de renda e a economia solidária.
65. Pobreza e ameaças à vida. Fiéis à opção pelos pobres, ter atenção especial aos excluídos e jogados à margem da dignidade humana. Opção pelos pobres e opção pela vida são duas faces de uma mesma moeda. Os novos rostos de sofredores precisam ser acompanhados por uma Pastoral Social estruturada:
a) Pastoral da Aids, na nossa Diocese incorporada à Pastoral da Saúde, com acompanhamento e apoio das políticas governamentais de combate à epidemia.
b) Pastoral da Sobriedade merece um olhar mais carinhoso e ampliação do seu raio de ação a mais paróquias de nossa Diocese.
c) Acolhimento de pessoas com necessidades especiais, assegurando-lhes o direito à evangelização, acessibilidade e integração na sociedade.
66. Oração: educar para a oração pessoal, familiar, comunitária e litúrgica. Oferecer às pessoas o contato pessoal com a Palavra de Deus, através do Oficio Divino e Leitura Orante da Palavra, círculos bíblicos e grupos de reflexão e movimentos. Guardar o equilíbrio diante da forte tentação do individualismo, facilitando o direito dos fiéis à participação dos sacramentos, sacramentais e demais atos de piedade cristã, com horários e locais adequados aos ritmos da vida das pessoas e maior disponibilidade dos ministros ordenados e leigos/as, incentivando a oração pelas vocações sacerdotais, matrimoniais e religiosas.
Renovar a comunidade
Pistas de ação
67. Diálogo dentro das comunidades. Para um testemunho de comunhão, praticar o diálogo no interior da comunidade eclesial. A variedade de vocações, carismas e movimentos precisam convergir para a unidade e não desembocar em competição, rejeição e discriminação. Todos são irmãos e iguais em dignidade. As paróquias para serem comunidade de comunidades, precisam de uma renovação, que implica reformulação de suas estruturas, através de sua setorização em unidades menores e, dentro dos setores, comunidades de famílias, com equipes próprias de animação e de coordenação. Não se pode perder de vista o valor e a contribuição das Comunidades Eclesiais de Base, que permitem ao povo chegar a um maior conhecimento da Palavra de Deus, ao compromisso social em nome do Evangelho, ao surgimento de novos serviços leigos e à educação da fé dos adultos. Junto a estas, existem outras formas válidas de pequenas comunidades, movimentos, grupos e associações.
68. Dons, serviços e ministérios. A comunhão de amor se manifesta na diversidade de carismas, serviços e ministérios. Os espaços de participação dos leigos, confiando-lhes ministérios e responsabilidades em uma Igreja onde todos vivam de maneira responsável seu compromisso cristão. Requer das comunidades e paróquias um planejamento das suas ações evangelizadoras visando: a diversidade ministerial, a formação de conselhos (pastoral e administrativo) e articulação das ações evangelizadoras. Fortalecer a Pastoral do Dízimo. Efetivar uma pastoral orgânica e de conjunto, capaz de articular ações, agentes e recursos, contribuindo para a articulação da diversidade de carismas e iniciativas de evangelização.
69. Diálogo ecumênico e interreligioso. Buscar o diálogo com os irmãos e irmãs que crêem em Jesus Cristo, respeitando-os e fazendo-se respeitar. Mesmo diante de dificuldades surgidas, em especial de setores que não aceitam o ecumenismo, é preciso perseverar no caminho do diálogo. Por outro lado, a verdadeira atitude de diálogo se estende para além dos cristãos. Convoca-nos ao encontro fraterno e respeitoso com os seguidores de religiões não cristãs e a todas as pessoas empenhadas na busca da justiça e na construção da fraternidade universal. Incentivar e promover a semana de oração pela unidade dos cristãos.
70. Comunidades missionárias. À luz do Documento de Aparecida, é preciso que nossas comunidades sejam todas, inteiramente missionárias (172); comunidades discípulas de Jesus; comunidades inspiradas pelo Espírito Santo; comunidade missionária voltada para a humanidade. É um desafio que necessita, urgente, uma ação missionária planejada, organizada e sistemática, uma verdadeira conversão pastoral. Avançar de uma pastoral de conservação para uma pastoral decididamente missionária, organizando Semanas Missionárias comprometedoras. Retomar missões populares com formação específica para a equipe que organiza e acompanha a visitação. Os primeiros interlocutores são os católicos afastados (não praticantes). Por isso, adquirem importância os ministérios mais diretamente ligados à missão em vista de paróquias, comunidade de comunidades.
Construir uma sociedade solidária
Pistas de ação
71. Igreja e convivência social. Trabalhar, em todos os ambientes da sociedade por uma cultura da vida e do respeito incondicional pela pessoa humana, bem como por uma nova cultura de austeridade:
a) estimulando condições mínimas de subsistência, centrando a atenção em aspectos básicos como alimentação, trabalho, saúde, moradia e terra;
b) firmando ainda mais o compromisso por políticas públicas que facilitem a criação de novos empregos, o acesso ao trabalho e renda, a redistribuição da terra e o desenvolvimento da agricultura familiar, de cooperativas, associações e política de território, além do crédito subsidiado aos pobres, por meio de instituições que emprestam com juros baixos;
c) combatendo a corrupção e a impunidade, através do efetivo acompanhamento das ações do poder público em todas as suas instâncias, continuando o combate contra a corrupção eleitoral, através da Lei 9840, e de outras iniciativas, como plebiscitos e abaixo-assinados para atender a vontade do povo;
d) trabalhando pela segurança e pelo combate à criminalidade;
e) incrementando ainda mais a presença pastoral junto aos presidiários, ajudando a dar às penalidades um caráter curativo e corretivo, visando à reintegração ao meio social;
f) promovendo uma sociedade que respeite as diferenças, combatendo o preconceito e a discriminação nas mais diversas esferas;
g) educando para a preservação do ecossistema, através de atitudes que evitem a destruição da natureza, tanto no meio urbano quanto no rural, entre elas, a preservação da água, patrimônio da humanidade, evitando sua privatização. Educando para a coleta seletiva do lixo e combate as queimadas e uso indiscriminado de agrotóxicos.
72. Compromisso solidário.
a) Fortalecer a Cáritas Diocesana, com suas ramificações em cada paróquia, que é de grande valia para incentivar e sustentar iniciativas de solidariedade para com os mais necessitados;
b) incentivar as diversas Campanhas de Coletas (Evangelização, Fraternidade etc);
c) continuar com o Mutirão para a superação da miséria e da fome;
d) apoiar a organização dos movimentos sociais ou populares, visando a que os oprimidos e excluídos tornem-se sujeitos da própria libertação e da edificação de novas formas de solidariedade;
e) superar gestos imediatos da doação caritativa, que embora importantes e mesmo indispensáveis, a opção pelos pobres implica convívio, relacionamento fraterno, atenção, escuta, acompanhamento nas dificuldades, buscando, a partir dos próprios pobres, a mudança de sua situação.
73. Compromisso social e político.
a) Incentivar a participação social e política dos cristãos nos diversos níveis e instituições, promovendo e participando de escolas de Teologia, teológico-catequética, políticas públicas, fé e política, agricultores, relacionadas à Saúde etc., cursos, grupos de reflexão, formação e ação;
b) empenhar-se na busca de políticas públicas que ofereçam condições necessárias ao bem-estar de pessoas, famílias e povos;
c) colaborar com outras instituições privadas ou públicas, com os movimentos populares e outras entidades da sociedade civil, no sentido de reivindicar democraticamente a implantação e a execução de políticas públicas voltadas para a defesa da vida e do bem comum, segundo a Doutrina Social da Igreja;
d) acompanhar o trabalho do Legislativo, do Executivo e do Judiciário, vigiando a fim de evitar a corrupção, a impunidade, o prejuízo ao bem comum e legislação que atente contra a vida e a lei natural;
e) apoiar as diferentes iniciativas de economia solidária, como alternativas de trabalho e renda, consumo solidário, segurança alimentar, cuidado com o meio ambiente, formas de finanças solidárias, trabalho coletivo e busca do desenvolvimento local sustentável e solidário.
74. Diálogo com as culturas.
a) Apoiar as propostas e políticas públicas que favorecem a inclusão social e o reconhecimento dos direitos das populações de origem indígena, ribeirinha e migrante a fim de favorecer a integração dos povos;
b) conhecer, avaliar criticamente e, em certo sentido, assumir a cultura globalizada, para termos uma linguagem compreensível por nossos contemporâneos;
c) promover o diálogo sobre as grandes questões éticas, como, por exemplo, o reconhecimento da dignidade da pessoa humana e a preservação do meio ambiente;
d) educar a comunidade eclesial como um todo no conhecimento da Doutrina Social da Igreja, como decorrência ética imprescindível da própria fé cristã;
e) engajar-se nas Campanhas da Fraternidade, que anualmente destacam um tema social relevante da realidade brasileira, bem como em outras iniciativas entre as quais as romarias da terra e das águas;
f) criar ou apoiar grupos, cursos e escolas de Fé e Política nos diferentes âmbitos eclesiais; g) participar em mobilizações e debates relacionados com momentos importantes da vida do povo como, por exemplo, Fóruns diversos, as Semanas Sociais, o Grito dos Excluídos e as campanhas eleitorais nas esferas municipal, estadual e federal.
75. A crescente urbanização.
a) Implementar uma ação pastoral adequada à realidade urbana em sua linguagem, estruturas, práticas e horários;
b) multiplicar e diversificar as comunidades eclesiais de base nas periferias e em ambientes específicos, tais como a escola, a universidade, os ambientes ainda rurais e o mundo das diferentes etnias;
c) fazer maior presença nos centros decisão da cidade, tanto nas estruturas administrativas como nas organizações comunitárias;
d) refletir e planejar a pastoral em comum entre paróquias da mesma cidade;
e) acolher aos que chegam à cidade e aos que já vivem nela;
f) dar atenção especial à evangelização nos ambientes mais distantes e empobrecidos e periferias, lugares facilmente esquecidos pelo poder público e nem sempre atingidos pelas iniciativas pastorais;
g) propiciar formação específica para presbíteros, diáconos e agentes de pastoral, inclusive leigos, capacitando-os a responder aos novos desafios da cultura urbana.
76. O mundo rural. Continuar o trabalho já assumido com os pequenos agricultores, meeiros, acampamentos de trabalhadores/as rurais sem terra a fim de garantir sua permanência no campo. Apoiar a luta pela terra e pela dignidade de todos/as. Apoiar as EFAs. Especial atenção seja dada às atividades do Projeto Pe. Ezequiel, Projeto Terra Sem Males, Pastoral da Terra e outros que contribuem para a permanência digna da pessoa no campo.
77. Mundo da educação.
a) Assumir com todo vigor o mundo da educação através da presença missionária nas escolas, colégios e universidades;
b) intensificar o empenho missionário para que as escolas públicas de gestão estatal não ignorem a formação integral dos estudantes, definindo a inclusão de conteúdos religiosos, animando e capacitando, doutrinal e pedagogicamente seus professores de Ensino Religioso;
c) dar atenção especial à formação de professores de Ensino Religioso.
78. A comunicação social. Fazer uso dos meios de comunicação com mais desempenho, competência e profetismo, para o anúncio do Reino de Deus:
a) estimular o espírito crítico atento à manipulação da opinião pública pela mídia, ajudando a selecionar, criticar, reagir e mesmo negar audiência a programas que firam a consciência cristã e a lei moral;
b) valorizar e apoiar os meios de comunicação próprios da Igreja, tornando-os adequados instrumentos no trabalho de evangelização;
c) valorizar os amplos recursos da internet e utilizá-la de modo criativo e responsável;
d) investir na formação de comunicadores, com boa preparação profissional e pastoral;
e) incentivar e, onde já existe, animar a Pastoral da Comunicação, para que se possa contribuir na integração entre as demais pastorais, articulando o processo de comunicação no interior da Igreja e envolvendo os meios de comunicação no anúncio da Palavra de Deus a todos.
79. As grandes questões da humanidade. Num mundo globalizado, em que as ações e suas conseqüências ultrapassam fronteiras, não fechar os olhos para aspectos que atingem não apenas o povo brasileiro, mas também os demais povos, em especial os marcados pela pobreza, pela exclusão, pela violência e pela perseguição:
a) sensibilizar os cristãos a respeito das grandes questões da justiça internacional, inspirados na postura de Jesus e nos princípios norteadores da Doutrina Social da Igreja;
b) incentivar a justa regulação da economia, do sistema financeiro e do comércio mundial;
c) examinar atentamente os tratados inter-governamentais e outras negociações a respeito do livre comércio, alertando os responsáveis políticos e a opinião pública a respeito das eventuais conseqüências negativas que podem afetar os setores mais desprotegidos e vulneráveis da população;
d) assumir efetivamente as questões ligadas ao aquecimento global e demais aspectos inerentes à responsabilidade ecológica de pessoas, grupos e nações;
e) incentivar a atenção às pessoas necessitadas de proteção internacional e apoiar à ação pastoral da acolhida e integração de refugiados em nosso país.
Enfim, não queremos uma integração dos povos entendida como área de livre comércio, como espaço econômico para a livre circulação das mercadorias e dos capitais, queremos buscar uma integração a partir dos processos de resistência à ordem global estabelecida que quer impor a todo custo a política imperial dos governos do primeiro mundo.
80. As Pistas de Ação somente atingirão seus objetivos se todos e todas, discípulos missionários, assumirmos engajados, o projeto da construção do Reino.
Conclusão
81. Assim como a Igreja no Brasil assume o compromisso com a Missão Continental, a Igreja Particular de Ji-Paraná também o faz. Nossa Igreja sempre foi missionária, sempre esteve em permanente estado de missão. É momento de intensificar este espírito missionário, participando da Missão Continental, assumindo-a do nosso jeito, de acordo com nossa caminhada, com nossa realidade. Nosso caminhar se fará levando em conta as quatro exigências da evangelização: serviço, diálogo, anúncio, testemunho de comunhão e os três âmbitos de ação: pessoa, comunidade, sociedade, contemplados em nossas diretrizes e nos animando a sermos, cada vez mais, discípulos/as missionários/as.
82. Particularmente, a Diocese de Ji-Paraná, reunida em Assembléia (XXI Assembléia Diocesana de Pastoral), nos dias 04 a 06 de março de 2011, reafirmou suas três prioridades. Sendo assim, convoca todos e todas, discípulos e discípulas missionários para, num esforço conjunto, prestarmos esse serviço à Igreja Particular de Ji-Paraná, contribuindo para a Missão Continental, assumida pela Conferência de Aparecida e Congresso Americano Missionário 3 (CAM 3/COMLA 8) e seus compromissos.
83. Prioridades
1. Promover a Dignidade da Pessoa
Deus criou-nos à Sua imagem e semelhança. Somos Pessoa e, como tal, devemos ter respeitada a nossa dignidade. Isso nem sempre acontece. É imperativo que cada discípulo e discípula missionária promova ações que demonstrem nosso amor caridoso e solidário, atuando para criação de estruturas mais justas, promovendo o respeito à Pessoa e dirigindo um olhar carinhoso e atento à Família, “um dos eixos transversais de toda a ação evangelizadora” (DA, nº 435). Por isso, assumimos o compromisso de:
Cobrança de políticas públicas em prol da família com iniciativas de solidariedade em relação a pessoas, famílias e grupos atingidos pela miséria, fome e tantas formas de sofrimento.
2. Renovar a comunidade
O povo de Deus da nossa Diocese sempre esteve reunido em Comunidades Eclesiais de Base. Viver em comunidade nos anima a atitudes de solidariedade e compromisso, buscando a transformação da sociedade. Sentimos um desânimo e uma desesperança em nossas comunidades, porém sentimos muito mais o desejo e a esperança da vida fraterna, vivendo e caminhando juntos, amadurecendo na Fé, saindo em Missão e construindo um novo mundo muito necessário. Por isso assumimos o compromisso de:
Promover, em nossa vida, o processo de educação da fé, a partir de uma espiritualidade vivenciada, na catequese, na palavra de Jesus, na Eucaristia, no perdão, na oração pessoal e comunitária, para que seja um verdadeiro incentivo na consolidação de uma pastoral orgânica e de conjunto, capaz de articular ações, agentes e recursos em vista de uma Evangelização Libertadora.
3. Construir uma sociedade solidária
A Diocese de Ji-Paraná, em comunhão com a Igreja Católica do Brasil, da América Latina, seguindo os ensinamentos de Jesus, sempre agiu e incentivou o povo de Deus a construir uma nova sociedade, tão necessária e urgente. Reafirma, agora, seu compromisso em construir uma sociedade solidária, devendo ser assumido por toda a comunidade cristã. Convoca, especialmente, todos e todas cristãs a agir levando em conta a crescente urbanização, fato comprovado em nossa Diocese, a comprometer-se em:
Implementar uma ação pastoral adequada à realidade urbana em sua linguagem, estruturas, práticas e horários; multiplicar e diversificar as comunidades eclesiais de base nas periferias e em ambientes específicos, tais como a escola, a universidade, os ambientes ainda rurais e o mundo das diferentes etnias; fazer maior presença nos centros de decisão da cidade, tanto nas estruturas administrativas como nas organizações comunitárias; refletir e planejar a pastoral em comum entre paróquias da mesma cidade; acolher aos que chegam à cidade e aos que já vivem nela; dar atenção especial à evangelização nos ambientes mais distantes e empobrecidos e periferias, lugares facilmente esquecidos pelo poder público e nem sempre atingidos pelas iniciativas pastorais; propiciar formação específica para presbíteros, diáconos e agentes de pastoral, inclusive leigos/as, capacitando-os/as a responder aos novos desafios da cultura urbana.



